Scandal | O legado de Shonda Rhimes para a TV

Último episódio da série foi ao ar ontem à noite

Fonte: ABC/Mitch Haaseth.

Permanecer relevante na televisão é uma tarefa difícil. Não é incomum vermos algumas séries estourarem nos seus primeiros anos, mas com o tempo perderem a qualidade e caírem no esquecimento – “Lost”“Heroes” são dois bons exemplos. Na noite de ontem, porém, vimos o exemplo oposto: após sete anos no ar, “Scandal” chegou ao seu último episódio, e está tão relevante como nunca.

Criada pela roteirista e produtora Shonda Rhimes – que tem em seu currículo sucessos como “Grey’s Anatomy” “How to Get Away with Murder” -, “Scandal” já recebeu diversos prêmios internacionais e conquistou fãs no mundo inteiro. A produção se tornou conhecida por suas personagens femininas fortes e complexas, tramas intricadas e por uma história charmosa capaz de cativar qualquer público.

Rhimes e Washington, em premiação de “Scandal”.

Se Grey’s lançou Rhimes, Scandal a consagrou como uma estrela mundial. Inspirada na vida de Judy Smith – secretária de imprensa do ex-presidente americano George H. W. Bush –, a série conta a história de Olivia Pope (interpretada pela brilhante Kerry Washington), uma gerenciadora de crises com uma única missão: encobrir os segredos dos figurões da política e da high society americana. Influente e bem-sucedida, Pope é capaz de solucionar qualquer problema, mas falha quando tenta lidar com seus próprios dramas.

É uma premissa interessante, sobre a qual se é construída uma protagonista de muitas camadas. E é a humanidade de Olivia Pope que criou no público uma relação duradoura, que perdurou durante os sete anos de produção. A executiva é implacável por fora, mas vive eternamente massacrada por dilemas morais. Ela precisa evitar escândalos, mas qual é o limite? Até quando alguém pode encobrir a verdade? Seria o trabalho uma vocação, ou apenas uma desculpa para que Pope esconda seus próprios pecados?

Em entrevista à VarietyShonda Rhimes comentou sobre a evolução de sua protagonista ao longo dos anos:

“Ela começou como uma personagem que acreditava em seu poder e o quão importante este tipo de poder era, e que se moldava para ser parte dele. Nós a observamos se tornar corrompida por este poder, cometendo os erros que todos cometem quando querem usufruir dele. E então a observamos lutar consigo mesma para deixar esta corrupção.”

A Escolha Perfeita: Kerry Washington

Ciente de que os dilemas morais deveriam estar dentro de uma personagem carismática com quem o espectador possa se envolver, a produção precisava de uma protagonista à altura. À época com 34 anos, Kerry Washington parecia a opção perfeita: de rosto bonito e perfil competente, a atriz já havia se destacado em filmes como “Ray Charles” (2004) e “O Último Rei da Escócia”. Naquele ano de estreia de “Scandal”, ela também estrelaria o premiadíssimo “Django Livre”, de Quentin Tarantino. A escolha não poderia ter sido melhor, e a atriz caminhou para se tornar um dos rostos mais frequentes da TV americana.

“Eu acho que algumas pessoas se esqueceram que Kerry Washington foi a primeira afro-americana a protagonizar um drama televisivo em 38 anos”, comentou Scott Folley, companheiro de tela em “Scandal”, em uma entrevista“Eu espero que isto não seja esquecido. Eu acho que a série quebrou vários estereótipos e criou um novo terreno nesse sentido”. 

Kerry Washington em Django Livre
Kerry Washington, ao lado de Samuel L. Jackson, no papel de Broomhilda em “Django Livre”.

Embora Washington tenha sido o rosto de “Scandal”, seu elenco coadjuvante também não deixou a desejar. A equipe de Pope – os “gladiadores de terno”, como são chamados – tem química e serve para dar consistência à trama, um contorno a mais de humanidade à protagonista. Abby (Darby Stanchfield) possui um excelente timing cômico, útil à produção, enquanto Quinn (Katie Lowes) se presta a fortalecer o arco principal. Os dilemas que perturbam Olivia Pope também são compartilhados pelo grupo, e é interessante assistir como cada um lida com eles.

“Scandal” encanta desde o episódio piloto, que confronta seus personagens com dilemas polêmicos e finaliza com um twist surpreendente. Essa lógica também acompanha os outros episódios. E é aqui que brilha a estrela de Shonda Rhimes: após uma elogiada primeira temporada, seria preciso muito talento para que a série mantivesse a qualidade. Mas com um roteiro ágil e diálogos fluentes, a produção eleva a tensão a cada temporada e se mantém interessante. “Scandal” consegue, assim, uma proeza rara no mundo do entretenimento: fazer com que as temporadas seguintes sejam melhores que suas predecessoras.

Elenco original de “Scandal”. Sentadas, da esquerda para a direita: Darby Stanchfield, Katie Lowes e Kerry Washington. Em pé, da esquerda para a direita: Guillermo Díaz, Columbus Short, Jeff Perry, Tony Goldwyn e Henry Ian Cusick.

Mas não é só de twists e tensões que vive a série. Na verdade, seu grande mérito foi prenunciar a representatividade na TV, mas sem apelar para o panfletário. Olivia Pope é mulher e negra, mas isso nunca é um tema. Seu destaque não se deve à cor de sua pele, mas à sua competência. E eis a sutileza de “Scandal”: a diversidade, aqui, está nos detalhes, sem necessidade de verborragias. Raças e etnias são apêndices, e não essência.

Shonda Rhimes, que também sofreu com as consequências de ter nascido mulher e negra nos subúrbios de Chicago, comentou sobre este legado de sua produção:

“Ela tem sido bastante multidimensional”, disse, referindo-se à Olivia Pope, “uma mulher independente em uma época que personagens femininas não eram anti-heroínas. Eu espero que isto seja algo que aconteceu e que agora se torne normal e óbvio – que mulheres possam ser anti-heroínas -, e que seja normal também que mulheres de cor possam protagonizar séries. Espero que isto seja algo que Scandal tenha feito”. 

Interessante e atual, mesmo após alguns anos de destaque, “Scandal” já figura no panteão das séries mais populares dos últimos anos. Fruto da mente mágica de uma roteirista com dedos de ouro, a série embala suas temáticas com elementos de drama, ação, investigação e política. O resultado não poderia ser diferente: é entretenimento, puro e simples, para todos os gostos.

As primeiras seis temporadas de “Scandal” estão disponíveis na Netflix.

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