Quarto de Visitas | “The Americans”: A Melhor Série da Atualidade

Inaugurando nosso "Quarto de Visitas", o leitor Sandro Vieira faz sua análise sobre o sucesso de "The Americans"

Começou a contagem regressiva de episódios para o fim de uma das séries mais envolventes (e mais subestimadas) dos últimos tempos! Entre os dias 28 de março e 30 de maio, The Americans” fechará sua trama, e enfim descobrimos qual foi o destino de Elizabeth (Keri Russel) e Phillip Jennings (Matthew Rhys), casal de espiões russos que é amado até mesmo pelo público norte americano.

Quando estreou em janeiro de 2013, a série trazia muitas interrogações a respeito de como, em plena segunda década dos anos 2000, poderia haver alguma relevância um programa situado nos anos 80, que tratasse da Guerra Fria sobre o viés de dois espiões russos vivendo sob o disfarce de um casal nativo em solo estadunidense. Ainda mais levando em conta as novas configurações globais em consequência da completa dissolução da antiga União Soviética, promovida pelo ex-secretário geral do Partido Comunista, Mikhail Gorbachev.

Keri Russel (à esquerda) e Matthew Rhys, em “The Americans”

Aqui cabe a ressalva de que considero o episódio piloto o pior episódio da saga, pois é totalmente fora do contexto que a série propôs ao longo dessas seis temporadas (o episódio vende uma falsa e ridícula ideia de que a produção seria uma espécie de “Sr. e Sra. Smith”), e poderia ter decretado seu precoce fim. Mas, felizmente, “The Americans” foi crescendo a cada novo episódio e surpreendendo positivamente a crítica e também o público, que se não tão espetacular em termos numéricos, permaneceu completamente fiel e apaixonado.

Com personagens incrivelmente complexos, e talvez por isso, tão reais, temos uma trama permanentemente tensa que se desenrola no mesmo ritmo e intensidade que o próprio período da Guerra Fria, quando mesmo diante da melhor das calmarias, o risco de uma hecatombe nuclear pairava como uma grande nuvem de medo e apreensão, tanto por parte das populações das duas potências envolvidas, como também de grande parte do mundo.

A caracterização oitentista – seja nos cenários, figurino, fotografia e principalmente, na trilha sonora – também é impecável. Num dos episódios da segunda temporada, temos a belíssima “Here Comes the Flood”, de Peter Gabriel, acompanhando uma cena que cresce sincronizada com a música até atingir um ápice emocional pra lá de intenso. Assim como com a canção “Who By Fire”, de Leonard Cohen, que encerra a quarta temporada, além de tantas outras escolhas certeiras, mas nunca óbvias, como Fleetwood Mac, Peter Shilling e Soft Cell

Fotografia de “The Americans”, que abusa das cores quentes, ajuda a estabelecer o clima oitentista da série. Na

Por sinal, a maioria das vezes em que essas músicas são inseridas, elas fazem aumentar o envolvimento do público com a série, pois são momentos muito mais reflexivos do que os de ação, contrariando a “lógica” clássica dos filmes de espionagem. Assim, em termos comparativos “The Americans” se situaria no extremo oposto dos filmes de James Bond e bem próximo de filmes como “O Espião que Sabia Demais”, de Tomas Afredson, ou de “O Homem Mais Procurado”, de Anton Corbijn.

Talvez esses muitos momentos de reflexão, que parecem tornar a série lenta, tenham afastado o grande público (que esperava uma versão televisiva de “Sr. e Sra. Smith”), o que explicaria o fato de a série receber tantos elogios da crítica especializada, com muitas indicações e prêmios como o Emmy, mesmo sem apresentar grandes índices de audiência.

Soma-se a isso o fato de a produção estar contextualizada com todo panorama geopolítico da década de 80, e se você pouco conhece sobre o que foram os governos Reagan, Bush pai e Gorbachev, poderá se sentir um pouco perdido, como por exemplo quando Elizabeth diz a Phillip que “Glasnot e Perestroika são apenas mentiras inventadas pelos americanos”.

Elizabeth e Philip, usando um de seus muitos disfarces em The Americans
Elizabeth e Philip, usando um de seus muitos disfarces na série. Lógica da Guerra Fria, repleta de agentes duplos e telefones grampeados, é reproduzida à perfeição em “The Americans”.

Por falar nos Jennings, a escolha de Keri Russel e Mathew Rhys para os papéis de Elizabeth e Phillip não poderia ter sido mais acertada. Além das características físicas que os assemelha ao povo russo, mas que ao mesmo tempo pode muito bem identificá-los como nativos estadunidenses, ambos atores estão num nível de atuação primoroso. Conseguem transmitir as mais diferentes cargas emocionais dos personagens apenas com o olhar. Aliás, a química que possuem, de tão forte e real, os uniu como um casal na vida real.

Para finalizar, vale lembrar que para quem ainda não viu “The Americans”, restam mais alguns episódios até que a série chegue ao seu final. Isso favorece aos que querem começar a assistir sem que haja influência de spoilers, pois mesmo não sendo tão popular, acredito que o que os roteiristas prepararam para o final será tão épico e marcante quanto foi a ascensão e chegada do ex-agente da KGB, Vladimir Putin, ao máximo posto governamental da mãe russa. Então, a questão passa a ser: será possível manter algo tão grandioso assim em segredo? Duvido muito!

Sandro Vieira é estudante de Geografia e leitor da Casa27.

Também deseja publicar seu texto no “Quarto de Visitas”? Clique aqui e entre em contato!

Comente Aqui!