Crítica | Westworld – 2ª Temporada

Série retorna maior e mais ambiciosa, mas com escolhas narrativas que podem acabar afastando parte do público

Cena de

Quando a HBO anunciou a produção de uma série que misturava faroeste à ficção científica – dois gêneros vistos como “de nicho” -, nem mesmo os analistas mais otimistas prenunciavam um grande sucesso. O investimento de US$ 100 milhões dava ideia de que o canal estava perdendo o juízo na busca pela sucessora de “Game of Thrones”. O que Jonathan NolanLisa Joy alcançaram em “Westworld”, porém, foi além de qualquer previsão: mesmo com um enredo rebuscado, a série quebrou recordes de audiência e acabou se tornando um fenômeno popular. Agora, dois anos após a estreia surpreendente, a série retorna maior e mais ambiciosa para dar sequência à Revolução dos Anfitriões.

O novo ano começa a partir do assassinato de Dr. Ford (Anthony Hopkins), um reflexo do despertar da consciência nos androides. Dolores (Evan Rachel Wood), a ex-mocinha que agora caminha na linha tênue entre vilã e heroína, se torna o símbolo da resistência da nova “raça”. Para vencer os humanos, ela precisa conduzir seu povo à mítica “Porta” – objeto que daria o acesso ao “outro mundo”.

Em vez se seguir as narrativas clássicas sobre apocalipses robôs, “Westworld” optou por explorar o lado filosófico do despertar da consciência. O foco aqui é menos na destruição da Humanidade e mais na humanização dos Anfitriões, constantemente testados pelo perigo do livre arbítrio. E para ilustrar a batalha moral dos androides para se distanciarem de seus criadores, a série se desdobra em múltiplos arcos narrativos – uma novidade em relação à temporada passada.

A confusão mental de Bernard (Jeffrey Wright) é a principal fonte de surpresas na nova temporada.

Esta fragmentação da narrativa é o carro-chefe da segunda temporada. No novo ano, mergulhamos fundo nos dilemas de Maeve (Thandie Newton), nas manias do Homem de Preto (Ed Harris) e nas loucuras de Bernard (Jeffrey Wright). A história de Dolores ainda é a mais importante, mas a escolha de dividir o tempo de tela fez bem à produção e serviu para borrar a noção de heróis e vilões na série. Afinal, naquele universo de duras escolhas, não há personagens unidimensionais: ninguém é totalmente bom, ninguém é totalmente mau. Bem-vindos ao mundo real.

A multidão de histórias paralelas também elevou o elenco de “Westworld” a outro patamar. Embora Thandie Newton tenha tido um grande ano, o grande destaque acabou ficando por conta do veterano Ed Harris, que levou seu personagem em uma interessante jornada rumo à paranoia. Para isso, os diretores abusaram dos closes e dos zoom-ins, enchendo a tela com o rosto retorcido e cheio de tiques de William – uma opção intimista que aumentou a tensão e obrigou o ator a transpirar emoção. Esse recurso, também bastante usado no Bernard de Jeffrey Wright, somou-se ao roteiro quase poético para distanciar a série da zona-comum da TV atual.

Ed Harris e a filmagem intimista de Westworld. A jornada para a paranoia de William é o grande destaque do novo ano.

Outro grande ponto positivo da fragmentação narrativa foi a ampliação do universo de “Westworld”. Ao explorar novos parques e um pouco do “mundo exterior”, a produção se tornou mais diversa do que nunca e ampliou os limites da história. Isso também permitiu que a série desenvolvesse ainda mais seu esmero visual – intenção que fica clara nas fotografias “naturais” e na opção pelos takes panorâmicos dos cenários. E é quando decide misturar o visual ao conceitual que a série encontra seus melhores momentos, como o caso do episódio “Akana no Mai”, evidente homenagem a clássicos japoneses como “Yojimbo”, de Akiro Kurosawa.

Porém, a decisão de se distanciar de narrativas mais “populares” no gênero acabou custando alguns espectadores. Ainda que demonstre pouco interesse pelo mainstream, a série iniciou a temporada prometendo mais sangue e menos filosofia. Porém, ela logo tornou a flertar com o mistério e as múltiplas linhas temporais – que embora sejam a alegria dos teóricos da internet, muitas vezes apenas fazem o espectador se perder no tempo. A brincadeira com os incontáveis flashbacks e flashforwards perde a graça lá pela metade e nos aproximou do pobre Bernard, que em um momento levantou os olhos para perguntar: “isto é agora?”.

Cena de “Akane no Mai”. O ator Hiroyuki Sanada entrega uma versão romantizada dos clássicos orientais.

Outro ponto inegável é que, para o bem ou para o mal, “Westworld” abusou da experimentação. Na tentativa de subverter a lógica das narrativas “comuns”, a série acabou entrando no território do imprevisível. Daí surgem episódios como o polêmico “Kiksuya”, quase inteiramente dedicado a um membro da Nação Fantasma. E enquanto a imprevisibilidade trouxe bons momentos visuais à produção e contribuiu para sua representatividade, ela também criou uma incômoda sensação de distanciamento e improviso. É a ostentação da beleza em detrimento da coesão narrativa.

Nada disso, porém, estraga o fato de que “Westworld” continua rompendo o status quo da TV atual. Tendo vencido a “maldição das continuações”, ela é uma das poucas produções atuais em que elenco, roteiro e direção permaneceram em crescente qualidade. Com uma terceira temporada confirmada (provavelmente ambientada no “mundo exterior”), a série tem agora a oportunidade de seguir para qualquer direção, do thriller apocalíptico ao drama conceitual. Alguém se arriscaria prever?

As duas primeiras temporadas de “Westworld” já estão disponíveis para streaming no serviço da HBO GO

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