Crítica | Um Lugar Silencioso

John Krazinski explora o básico para criar uma história de suspense original e inteligente

Mais que assustar, um bom suspense precisa saber construir um clima de tensão, algo que coloque a plateia na beira dos assentos no cinema. Uma trilha sonora alucinante ou um personagem assustador, nesses casos, é menos importante que uma história inteligente e cuidadosamente elaborada para mexer com sua audiência. E é esse o mérito de Um Lugar Silencioso: mais que proporcionar sustos gratuitos, o filme de John Krasinski é inteligente e se arrisca ao usar o básico para criar uma história definitivamente original.

A trama se passa em uma fazenda do meio-oeste americano, onde a família Abbot tenta sobreviver ao apocalipse do mundo. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio, pois à espreita estão vários alienígenas que são atraídos pela percepção do som. Desesperados, eles andam descalços, se comunicam por meio da linguagem de sinais e tentam levar a vida no mais absoluto silêncio.

A família Abbot. John Krasinski (à frente) é o responsável por “Um Lugar Silencioso”.

Essa premissa é o primeiro tiro certeiro de Krasinski (que também protagoniza o filme). O silêncio, que normalmente é usado como antecipação de um susto nos terrores convencionais, é explorado o tempo inteiro. Em muitas partes do filme, até a trilha sonora se cala, dando lugar apenas aos mínimos sons dos passos de um personagem, ou da respiração desesperada de Evelyn (a personagem da excelente Emily Blunt). O resultado é que, em vários momentos, quando nossos ouvidos já estão acostumados com a escassez de som, qualquer barulho simples – como o das águas em um rio – já é suficiente para provocar um grito da plateia.

É nessa atmosfera quieta que “Um Lugar Silencioso” cria uma aura de desconforto ao espectador, que, assim como os personagens do filme, acaba se utilizando de outros sentidos. Com a ausência de som, John Krasinski impele sua audiência a prestar mais atenção nos detalhes – para então usá-los para assustar. Tudo isso deixa a experiência cinematográfica um tanto diferente do convencional, e esse é um grande mérito do filme.

Outro grande ponto é a construção narrativa. Sem qualquer intenção grandiosa, o longa não se dá a grandes explicações, nem pretende explicar o apocalipse. Ninguém sabe de onde os alienígenas vieram, mas isso não faz falta: o objetivo aqui é focar nas experiências do núcleo familiar, em uma história fechada e sem preciosismos. A atenção migra do grandioso para o mínimo, em um roteiro que se propõe a explorar as emoções dos personagens, presos em uma vida de pouca expressão e em um silêncio quase claustrofóbico.

Krazinski, visto aqui com Noah Jupe. A atmosfera de silêncio é a grande responsável pela tensão ao entorno do filme.

É claro que, para que um filme quase sem diálogos consiga se destacar, grande parte da responsabilidade recai sobre as atuações. Neste sentido, tanto Krasinski quanto Emily Blunt e Noah Jupe dão uma aula de expressividade, transmitindo toda a gama de sensações através das expressões e gestos. Já a atriz Millicent Simmonds deixou um pouco a desejar: no papel de uma surda em um filme silencioso, uma exteriorização mais acentuada seria necessária para a construção da personagem.

Ainda assim, “Um Lugar Silencioso” já conquista seu lugar pela originalidade. Sem medos, ele desce ao visceral para explorar o mais básico dos instintos humanos: a sobrevivência. Seus protagonistas precisam voltar às primícias da história, onde a organização social e união da espécie são ingredientes fundamentais para garantir a vida. Simples, mas inteligente, o filme é uma homenagem ao melhor do suspense.

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