Crítica | O Mecanismo

Nova série de José Padilha é pouco original, mas é o desabafo de uma sociedade cansada.

O'Mecanismo

“O Mecanismo” começa com um aviso: o programa que estamos prestes a ver é uma obra de ficção, adaptada para um efeito dramático. Com essa salvaguarda, José Padilha troca alguns nomes, mistura realidade com ficção e conta a sua versão da Operação Lava-Jato. No fundo, porém, a série é uma reciclagem do que o diretor sempre fez de melhor: uma trama de gato e rato, marcada pela crítica à hipocrisia nacional e à corrupção da classe dominante. É pouco original e não muito inspirada, mas ainda é o Padilha que gostamos de ver.

A trama de “O Mecanismo” analisa os bastidores da Lava-Jato através dos olhos da Polícia Federal. O foco é na vida de Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena (Caroline Abras), dois delegados que dedicam suas vidas a entender o mecanismo da corrupção brasileira. Há anos eles estão na trilha do doleiro Ibrahim (uma versão de Alberto Yousseff, interpretado por Enrique Diaz), um criminoso convicto que insiste em escapar da prisão. Mas quando descobrem uma estranha relação entre o doleiro e um diretor da “Petrobrasil”, os policiais acabam caindo no centro do maior esquema de corrupção da História.

Caroline Abras (em destaque) como a delegada Verena. Atriz é um dos grandes pontos de “O Mecanismo”.

É uma história que mexe com muitos ânimos, sobretudo porque é difícil separar a política da Lava-Jato. No entanto, um dos méritos de Padilha foi criar uma história apartidária – pelo menos até onde foi possível. Enquanto faz sua narração à moda de Capitão Nascimento, Ruffo sempre deixa claro que o “mecanismo” não é um partido, uma personalidade, “direita” ou “esquerda”; é um paradigma, uma patologia que começa de baixo para cima. Para provar isso, o diretor evita vilanizar indivíduos: o grande vilão aqui, o “câncer”, é a corrupção.

Padilha também não se furta a criar estereótipos bem claros. Seu novo herói, ainda que um delegado federal, é mostrado como alguém do povo, simples e revoltado. A insurgência de Marco Ruffo contra os homens de terno e gravata – políticos, empresários, promotores e juízes – é o símbolo do descrédito popular às autoridades e instituições. Ao construir sua trama sobre essa poderosa mensagem de ódio e vingança, a série se define como uma manifestação popular; Ruffo e sua Polícia, como porta-vozes da sociedade.

Para os fãs de outros trabalhos do diretor, porém, “O Mecanismo” pode deixar a desejar em alguns pontos. Embora esteja carregada de tensão, a série falha em construir personagens mais memoráveis. Toda vez que tenta explorar a vida pessoal de Ruffo ou Verena, o roteiro se torna cansativo e clichê. O resultado é que, em vez de criar protagonistas complexos como Nascimento ou Pablo Escobar, Padilha constrói dois robôs unidimensionais, sem sentimentos claros, que vivem e respiram a Lava-Jato e nada mais.

Selton Mello, como o delegado Marco Ruffo. Policial é retratado como um representante do anseio popular.
Foto: Pedro Saad/Netflix

Além disso, ao contrário de “Tropa de Elite” e “Narcos”, o roteiro aqui é mais simples e os diálogos, bem menos inspirados. Vez ou outra nos deparamos com Mello sussurrando alguma frase de efeito, que em vez de grandiosa acaba sendo apenas brega. Forçar discursos é um grave erro, que acaba tirando o espectador da magia por um instante. Visto por esse lado, “O Mecanismo” deve muito ao seu elenco: não fosse o show de atuação – principalmente por Caroline Abras e Enrique Diaz–, certamente a série teria sido simplesmente esquecível.

Ser salva pelo elenco não faz da produção algo ruim, mas deixa claro que ela poderia ter sido melhor. O dedo de ouro de Padilha ainda está ali – há tensão, revoltas e uma exposição clara do mundo do crime –, mas não estamos diante de um novo ícone. Ainda assim, é um interessante desabafo de um homem, que acaba sendo ecoado por uma boa parcela da sociedade. Quem, afinal, não está cansado de ser refém do terrível “mecanismo”?

Você pode assistir ao trailer de “O Mecanismo” aqui.

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