Charlotte Brontë | A escritora que desafiou o mundo

Escritora de "Jane Eyre" morreu há exatos 163 anos

Há 163 anos, em 31 de março de 1855, Charlotte Brontë faleceu de uma suposta tuberculose. Tendo vivido em uma época de desprezo pelas mulheres, a escritora enfrentou a sociedade machista, escreveu sobre as violências contra o gênero feminino e marcou uma geração de leitoras em todo o mundo. Por essas qualidades – que falam alto até os dias de hoje –, ela é a escritora escolhida para o nosso perfil.

Nascida em 1816, em Thornton, Inglaterra, Charlotte perdeu a mãe cedo e foi mandada junto de outras três irmãs – Emily, Maria e Elizabeth – para a Clergy Daughters’ School, em Cowan Bridge, Lancashire. Ali, as quatro meninas enfrentaram um lugar malcuidado e de regime cruel, que acabou levando Maria e Elizabeth à morte por tuberculose. Mais tarde, a trágica estada de Brontë na escola seria a inspiração das passagens de “Jane Eyre” na Lowood School.

“Sabe-se muito bem que é dificílimo erradicar preconceitos dos corações cujos solos nunca foram revolvidos ou fertilizados pela educação: preconceitos crescem ali firmes como erva daninha entre pedras”. 

– Jane Eyre, 1847

Após a morte de suas irmãs, em 1825, Charlotte e Emily retornaram para casa em Haworth, onde, com seus irmãos Branwell e Anne, passaram a ter uma vida reclusa. Esse duro período marcou a vida dos quatro, incentivando-os a escrevem poemas e contos sobre reinos imaginários e aguçando sua criatividade para a vida literária que o futuro lhes reservava. Aliás, as três irmãs Brontës escreveram mais quando crianças que quando adultas; um dos pequenos livros de Charlotte tem mais de 60.000 palavras, uma coleção sobre os reinos imaginários de Gondal e Angria.

Em 1842, Charlotte e Emily viajaram para Bruxelas para se matricular em um colégio interno. Foi lá que a nossa escritora acabou se apegando ao diretor e professor, Constantin Heger, casado. A afeição levou Charlotte ao ponto de enviar cartas de amor – o que acabou sendo a maior influência de sua obra “O Professor” (1857). Porém, ela precisou retornar para casa novamente quando sua tia, Elizabeth Branwell, morreu em outubro de 1842.

“Os romancistas nunca deveriam deixar de estudar conscienciosamente a vida real. Se assim fizessem, não pecariam tanto pelo exagero de contrastes.”

– “O PROFESSOR”, 1857

 

Talvez pela proximidade com Heger, Charlotte retornou e assumiu um posto como professora na escola, em 1843. Mas sua estadia foi infeliz, em grande parte por sua solidão: afinal, ela já não estava na companhia de sua irmã Emily, nem tinha seu amor pelo diretor correspondido. Esse período de sua vida também está presente na obra “Villete” (1853).

Atriz Mia Wasikowska como Jane Eyre, na adaptação do livro em 2011.

Logo em 1844, Charlotte retorna a Haworth, onde provavelmente aperfeiçoou sua aptidão literária. Em 1846, as três irmãs Brontë publicaram conjuntamente um livro de poesia sob os pseudônimos de Currer, Ellis e Acton Beel, mas que vendeu apenas dois exemplares, talvez pelas temáticas muito inovadoras que tocam no feminismo prematuro.

Foi nessa época também que Charlotte investiu no romance “O Professor”, um de seus clássicos. A obra, no entanto, foi rejeitada por diversas vezes – o editor George Smith, aliás, recusou o livro por nove vezes, até a publicação em 1857.

Em 1847, Charlotte Brontë publicou sua obra mais conhecida, “Jane Eyre”, sob o pseudônimo masculino de Currer Bell. O livro foi aclamado pela crítica, até surgirem especulações de que teria sido escrito por uma mulher. Seu tom feminista foi visto como “rebelde”, e o livro foi então reputado como “impróprio”. No entanto, isso só serviu para torná-lo um sucesso ainda maior de vendas – sobretudo entre as mulheres letradas, que viam nas palavras de Brontë um sonho de liberdade que poderia se tornar realidade.

“Para onde vai, Jane?”, perguntou Mr. Rochester. “Para a Irlanda?”

“Sim”, eu respondi, “para a Irlanda. Posso ir onde quiser agora”.

“Jane, fique calma; não se perturbe, como um pássaro selvagem e frenético que destrói sua própria plumagem em seu desespero”.

“Eu não sou um pássaro; e nenhuma rede pode me prender; eu sou um ser humano livre, com uma vontade independente, que agora eu exerço ao deixar você para trás”.

– “Jane EYRE”, 1847

Entre 1848 e 1849, Charlotte perdeu seus três últimos irmãos: Branwell de bronquite crônica, Emily e Anne de tuberculose. Foi quando ela se dedicou a cuidar do pai idoso, a última família que tinha. Em 1854, a escritora se casou com Arthur Bell Nicholls e engravidou. Durante a gestação, ela acabou contraindo tuberculose e veio a falecer. Ela estava prestes a completar 39 anos.

Até hoje, ler um romance de mais de 150 anos escrito por Charlotte Brontë não é uma tarefa previsível nem rasa. A violência e o ódio, tão presentes em sua vida, são os ingredientes de seus livros, que ainda tratam de temas atuais. Os maus-tratos a crianças, a bigamia, a loucura – tudo isso preenche as páginas de Brontë e movem cada leitor a uma profunda reflexão. Em uma época de ouro para a Literatura, com grandes nomes como Charles Dickens, William Makepeace Thackeray e George Eliot, ela se destaca.

Seja no século XIX, seja em 2018, Charlotte Brontë permanece atual. Toda sua história repleta de sofrimento virou arte, arte livre e universal, arte independente e atemporal. E é claro que não poderíamos deixar de indicar as suas obras de maior destaque.

Confira nossa lista abaixo:

1. Jane Eyre

O clássico de Charlotte Brontë é uma história adulta sob o ponto de vista de uma criança. A autora escreveu uma espécie de autobiografia ficcional em “Jane Eyre”, com uma história amplamente baseada por tudo o que você leu acima: uma órfã que enfrenta a vida, desafia a sociedade e se torna um símbolo da independência feminina. O livro é raiva, sofrimento e criatividade em palavras, e simplesmente imperdível para qualquer amante da Literatura.

2. O Professor

O livro retrata em primeira pessoa a vida do Professor William Crimsworth, um jovem inglês, órfão, que passa a vida em busca dos seus objetivos e interesses. A história o leva para a Bélgica, onde acompanhamos seu amadurecimento sentimental composto pelo desgosto de uma paixão não correspondida e pela persistência e coragem de encontrar seu verdadeiro amor. Muito mais que um romance, “O Professor” é uma obra-prima, e também uma janela aberta para o coração de Brontë.

3. Villete

Também repleto de elementos autobibliográficos, “Vilette” mostra a protagonista Lucy Snowe indo em direção ao desconhecido ao sair da casa de sua madrinha e, entre adversidades, tornar-se professora de inglês em um internato na cidade de Villete. Ali, a moça se envolve em um romance quase platônico, enquanto outros personagens são introduzidos e acabam moldando a vida de Lucy. Embora tenha um ritmo mais lento que “Jane Eyre”, “Villete” é a forma de Charlotte Brontë mostrar como uma mulher de sentimentos calmos pode se tornar uma heroína que vai à luta.

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