Arca do Noé | Por que Chaves e Chapolin são importantes para a TV latino-americana

Saiba como os personagens de Roberto Bolaños influenciaram a televisão dos anos 1970

Chaves e Chapolin

As últimas semanas foram de comemoração para os fãs das séries “Chaves” ( El Chavo del 8) e “Chapolin Colorado” (El Chapulín Colorado). As duas produções cômicas de maior sucesso da América Latina passaram a ser exibidas diariamente pelo canal pago Multishow. A notícia da estreia pegou muitos espectadores de surpresa, já que o canal fechado pertence ao grupo Globo, que ao longo das últimas décadas disputou acirradamente a audiência com a turma do Chaves – um trunfo que o SBT exibe initerruptamente desde 1984. A novidade dessa vez, porém, é a exibição em ordem cronológica, contendo os 500 episódios originais das séries, muitos nunca exibidos no Brasil.

Na América Latina, depois da tequila e dos mariachis, é provável que as figuras do Chaves e do Chapolin sejam as primeiras associações que venham à cabeça quando falamos do México. Não é para menos: Roberto Gómez Bolaños, conhecido popularmente como Chespirito, foi quem criou e interpretou esses ídolos legitimamente latino-americanos.

Se há um gênero artístico difícil de desenvolver, este é o humor; mas Bolaños soube fazê-lo primorosamente, como poucos. É por isso que os grandes humoristas são pessoas que não apenas têm uma enorme sensibilidade artística, mas, acima de tudo, uma grande dose de humanismo e inteligência. Esse talento pode quebrar todas as barreiras de gênero ou de classe social; e através de seus personagens e das situações que recriam, conseguem superar os enquadramentos mentais e culturais de forma lúdica, transformando a tragédia e o drama em comédia. Foi isso que o intérprete do Chaves fez.

Chapolin, outro personagem marcante de Roberto Bolaños.

Entre os anos de 1970 e 1990,  Chespirito se tornou naturalmente o sucessor do comediante Cantinflas, que até então reinava com seus filmes de comédia na “época de oro” do cinema mexicano. Aos poucos, o mercado da televisão foi se consolidando, transformando-se na peça fundamental da indústria cultural latino-americana. Junto com as novelas mexicanas, os programas de Chespirito se converteram nos produtos mais exitosos de exportação da indústria asteca ao longo das últimas décadas do século XX. Não há dúvidas que Roberto Gómez Bolaños ajudou a construir um império de comunicação chamado Televisa – e com auxílio dela,  transformar-se em uma estrela de talha internacional.

Muitos sonham em atingir o êxito com um personagem, e Roberto criou não só um, mas uma Corte para acompanhá-lo. Com certeza, os mais recordados são os da vila do “Chaves”, onde Bolaños reuniu um elenco talentoso, que foi aproveitado praticamente em todas as suas obras audiovisuais. É provável que a força desses personagens esteja na descrição engraçada, infantil e lúdica do mundo da pobreza na América Latina que Roberto transportou para TV. A vida daquelas pessoas ensina, de forma engenhosa, como sobreviver em meio a dificuldades, deficiências e necessidades, sem perder a ternura.

Não importa o país, aquele cenário de papelão e as situações corriqueiras daquela vila poderiam se passar na periferia não só da Cidade do México, mas no centro urbano de qualquer grande cidade da América Latina. O clima familiar, a fraternidade e as confusões, claro, entre os vizinhos, faziam uma crônica perfeita da nossa cultura calorosa, com personagens que caíram no gosto popular.

A figura do Capitalismo gira em torno do Sr. Barriga, um homem insensível, com ternos limpos, e constantemente de mãos abertas para receber o dinheiro dos mais pobres.

Até o Sr. Barriga, o “capitalista” do programa, também é um pobre coitado, que nunca recebe o aluguel do Seu Madruga (e muito provavelmente não teria recebido nenhum centavo dos outros inquilinos). No final, o “vilão” de outrora é um homem gentil, que deve suportar os testes mais difíceis das crianças para entrar na vila, e mesmo assim as leva para passar o Natal em sua casa, ou fazer uma viagem para Acapulco.

Assim, cada personagem do mundo de Bolaños está cheio de valores que surgem em resposta à pobreza, à necessidade e à falta. Considerando os “males” ou “perversidades” que eles executam, eles nunca alcançam estados patológicos que quebram o tecido social. Pelo contrário, lá no fundo há gentileza, companheirismo, otimismo e identidade em suas ações.

Com o Chapolin Colorado, Chespirito criou um herói às avessas, espirituoso, desajeitado, medroso, mas sempre disposto a ajudar – não é à toa que o brasão da sua roupa característica é um coração. Pela primeira vez, a América Latina teve um herói genuinamente seu, que excedeu as barreiras do México e conquistou todo o continente.

Como aconteceu nos anos de 1960 na Argentina, quando o cartunista Quino criou as tirinhas da personagem Mafalda, como resposta ao mundo anglo-saxônico de Charlie Brown e Snoppy, o Chapolin Colorado foi uma resposta ao mundo dos quadrinhos dos super-heróis americanos que monopolizavam esse mercado em detrimento a outras culturais locais.

Elenco de Chaves.

Com um humor leve, apoiado no pastelão e nos clássicos “pie in the face” do começo da televisão americana, Roberto soube reproduzir à sua maneira (já que escrevia e dirigia o programa) um estilo de humor que se tornou universal. Bolaños soube identificar tendências em comédias nacionais e internacionais e as aplicou. Projetou um sistema de gravação que até hoje não é comum no México – seu elenco não usava ponto eletrônico. Chespirito trabalhou de uma forma muito semelhante ao teatro, no qual ele ensaiava antes das gravações, e os capítulos eram entregues aos atores para serem lidos em casa e já chegarem ao estúdio com os personagens trabalhados.

Em tempos de politicamente correto no século XXI, é possível que alguns se choquem com certas situações do programa, como as brigas entre os personagens, adultos batendo nas crianças, um professor dando aula de charuto aceso, os “apelidos” referentes às características físicas de alguém. Enfim, acredito piamente que nenhum leitor que assistiu a esses programas tenha desenvolvido nenhuma falha de caráter por isso, certo?

A princípios dos anos de 1970, a própria classe média mexicana e setores da educação daquele país torceram o nariz para os programas de Roberto Bolaños, classificando-os como “pouco didáticos”. Mas os conservadores tiveram que se recolher diante de um produto que era um fenômeno cultural, e assim, muitas crianças não precisaram mais assistir aos programas do “Chaves” e “Chapolin” às escondidas dos pais.

Uma fato interessante da série, e até mesmo atípico na história da televisão, é que, não só no México, mas em diversos outros países, nos anos seguintes as inúmeras reprises do programa chegavam a superar as exibições originais, mostrando que assim como o programa, o público ia se estendendo de geração em geração e cada vez mais acumulando novos fãs.

Roberto Bolaños, em foto de 2014. Ator morreria em novembro deste ano, aos 85 anos de idade.

Bolaños alcançou toda essa relevância porque soube construir um senso de humor 100% universal, escrevendo para uma audiência mundial e familiar.  Seus programas foram grandes sucessos em outros países – o que não é muito comum no caso de comédias nacionais – porque seu humor funciona em todas as partes do mundo, com um enredo compreensível, compatível, global e muito básico. Roberto fez com que seus personagens se desprendam de suas individualidades e se expressem através de uma linguagem televisiva na qual todos pudessem se sentir identificados. Assim, milhões de telespectadores sintonizavam seus programas, não só em países hispanófonos e lusófonos, mas ao redor de todo o planeta, como Japão, China, Grécia, Líbano etc. Segundo a Televisa, Chaves e Chapolin foram dublados em mais de 50 idiomas.

Em um tempo em que ainda não existia a palavra “multimídia”, Roberto Bolaños já poderia ser classificado assim. Foi um criador impressionante, passando pelos programas de humor na TV e na rádio, cinema, escrevendo histórias em quadrinhos de seus personagens, dirigindo telenovelas. Foi uma carreira extensa. “Sem querer querendo”, “não contavam com minha astúcia”, “sigam-me os bons” – quem nunca falou ou ouviu uma dessas frases por aí? Não é por acaso que os anos passam e prosseguimos usando as palavras que ele escreveu e que continuamos rindo do que ele fez, como acontece apenas em outras partes do mundo com personagens do Walt Disney e do Charles Chaplin. Os personagens de Chespirito também são atemporais no imaginário popular.

Roberto Gómez Bolaños faleceu em 2014, causando uma catarse mundial. O velório do humorista foi realizado no Estádio Azteca da Cidade do México, com capacidade para mais de 100 mil pessoas,  com honras de chefe de estado e transmissão ao vivo em diversos canais do continente americano. Uma estrela como Chespirito não poderia sair de cena sem uma justa homenagem. Sabemos bem que a indústria do entretenimento cria sucesso tão estrondosos quanto efêmeros, e não é pra qualquer um mais de 50 anos de sucesso ininterrupto. Seus personagens transformaram-se em franquias que seguem atingindo antigos e novos admiradores nas mais diferentes plataformas. Todo o sucesso de Chespirito é uma prova que a obra do grande artista transcende a própria vida, e de que a qualquer momento ele pode sair de dentro daquele barril.

Luiz Filipe Noé escreve quinzenalmente para a Casa27.

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