Arca do Noé | “Hiroshima, Meu Amor”: tristeza e beleza em uma das obras mais importantes do Cinema

Com uma narrativa poética e cheia de subtextos, Alain Resnais construiu um verdadeiro clássico sobre perda, tristeza e esquecimento

Hiroshima, Meu Amor

“Hiroshima, meu amor” (Hiroshina mon amour, 1959) narra a história de uma jovem atriz francesa (Emmanuelle Riva) que viaja ao Japão em 1957 para filmar um filme pacifista na cidade atingida pela bomba nuclear durante a Segunda Guerra Mundial. Lá ela se envolve afetivamente com um arquiteto japonês (Eiji Okada). Durante 24 horas, eles se perdem, procuram-se, e encontram novamente um ao outro. Na primeira noite de amor, a atriz lembra de outro amante, seu primeiro amor, um soldado alemão que conheceu em Nevers, sua cidade natal durante o período da ocupação nazista. Ele foi morto diante de seus olhos, deixando-a traumatizada. Nessa narrativa, as lembranças dolorosas do passado da atriz são sobrepostas à vida cotidiana de uma Hiroshima martirizada.

A importância de testemunhar as barbáries humanas já estavam presentes desde os primeiros trabalhos no cinema de Alain Resnais (1922-2014). Antes da sua entrada na ficção cinematográfica, Resnais dirigiu vários documentários. O mais aclamado e conhecido entre eles foi “Noite e Neblina” (Nuit et Brouillard, 1955), um documentário sobre os campos de concentração nazistas de Auschwitz e Majdanek na Polônia. “Hiroshima, meu amor” foi resultado dessa preocupação contínua do diretor, e se tornou uma das mais profundas reflexões da história cinema sobre o horror da guerra, o sofrimento e o esquecimento.

Alain Resnain, diretor de Hiroshima, Meu Amor
Alain Resnais, diretor de “Hiroshima”.

A ideia de fazer o filme cresceu de uma comissão que contratou o diretor para fazer um documentário curto sobre a bomba atômica, mas Resnais achou isso uma tarefa impossível devido à complexidade de retratar de forma realista um dos maiores extermínios da era moderna. Depois de expressar sua preocupação ao produtor pela dificuldade em realizar a ideia, eles concordaram em transformá-la em uma história fictícia. Assim, Resnais convidou a já conhecida escritora Marguerite Duras, nascida em Saigon, na antiga Indochina Francesa, para escrever o roteiro. O roteiro respondeu às exigências do cineasta: uma história de amor com a presença da agonia causada pela bomba atômica, mas sem que protagonistas participassem da ação, e fossem apenas testemunhas dela.

Marguerite Duras imprimiu no script o estilo literário que a consagrou como grande autora na Europa, figura proeminente do movimento literário francês conhecido como “Nouveau Roman”. A autora imprimiu no roteiro cinematográfico sua marca existencialista, e junto com Alain Resnais deu o tom paradoxal de beleza e gravidade que o filme precisava.

“Hiroshima, meu amor” é uma obra de contrastes arrojados. Sua muito elogiada cena de abertura é um testemunho de uma cidade, reconstruída após o cataclismo da guerra, mas incapaz de escapar de seu passado. Naquelas lembranças de um pretérito triste, a narrativa nos apresenta a história de dois amantes que enfrentam histórias pregressas igualmente inescapáveis, e é nesse conflito existencial que Resnais nos submerge.

Marguerite Duras, roteirista de “Hiroshima, meu Amor”. Escritora foi a das responsáveis pelos diálogos poéticos e repletos de subtextos, uma das marcas do longa.

No filme, o sofrimento dos dois protagonistas é público e privado, conversa tanto com o coletivo quanto com o pessoal. Durante o filme, a personagem de Emmanuelle Riva conta a história de seu amor fulminante pelo soldado alemão para aquele homem que ela acabara de conhecer. Ela remói o assassinato de seu amado, a humilhação nas mãos dos habitantes da cidade e a dor que a transformou em uma mulher perturbada. Nas entrelinhas, o maior medo da protagonista é esquecê-lo. Contar sua história é uma maneira de mantê-lo vivo, enquanto ela também está ciente de que cada passo que dá para o futuro é um passo que a liga com o passado. Esse sentimento a confunde em relação ao encontro que ela tem com o affair japonês. A francesa parece ter medo de se entregar e sofrer novamente. A narração da lembrança, por mais essencial que seja, parece uma traição retroativa em relação ao novo amante.

Outro efeito narrativo intrigante que Resnais utilizou foi o de não dar nome aos seus personagens. A atriz francesa que vai a Hiroshima gravar um filme sobre a paz é apresentada apenas como “ela”, assim como seu amante japonês, o arquiteto, é apresentado ao público apenas como “ele”. É provável que o espectador entenda no final do filme o porquê desse recurso.

Outro ponto de vanguarda do diretor foi apresentar uma história com um casal inter-racial:  a protagonista europeia se relaciona com um japonês, deslocando a narrativa para o continente asiático, rompendo com a fixidez eurocêntrica dos filmes ocidentais da época.

Em um momento de efervescência das vanguardas cinematográficas na Europa, Alais Resnais já fragmentava a narrativa clássica arquetípica com um roteiro não linear. Por meio de flashbacks, registros da guerra, narração de voz, repetidos diálogos e de uma estética cinematográfica totalmente inovadora, “Hiroshima” apresenta o tempo de forma circular – passado, presente e futuro estão embaralhados um no outro.

Emmanuelle Riva (em destaque) e Eiji Okada. Romance entre europeia e japonês rompeu os padrões cinematográficos da época e seguiu a ideia globalizada do pós-guerra.

Apesar disso, sempre parece um filme que conversa com o mundo real; não é bem realista, mas certamente revela algo de suas origens conceituais como documentário. A força de impacto do longa reside principalmente na justaposição que mescla imagens horríveis da destruição que a bomba causou na cidade com um diálogo poético, rítmico e impecável, junto a uma trilha sonora que aumenta a angústia de cada cena. Paradoxalmente, o diretor consegue o feito sublime de transformar uma imagem de desgraça em algo bonito e chocante ao mesmo tempo.

Refletir que as memórias desaparecem, que as pessoas esquecem assim como são esquecidas, gera uma inevitável melancolia em qualquer um. Mas o que Resnais parece propor é que, para abraçar o futuro, talvez seja necessário abandonar o passado. Será que a memória do amor falecido alimentará o amor nascente? Ao terminar o filme, é provável que esse dilema siga na cabeça do espectador. Acredito que o crítico cinematográfico Eric Rohmer tenha conseguido descrever essa sensação em poucas palavras, durante uma mesa-redonda sobre o filme em 1959, que foi publicada na revista “Cahiers du Cinéma” (Vol.97) em julho daquele ano: “Hiroshima é um filme que mergulha no passado, no presente e no futuro. Há um sentimento muito forte sobre o futuro, e especialmente uma angústia desse futuro.” 

“Você não viu nada em Hiroshima. Nada”, foi a fala dita pelo arquiteto japonês. Essa com certeza é a linha mais poderosa e orientadora do filme. Se foi e continua sendo impossível falar do que aconteceu em Hiroshima, é menos difícil imaginar algo de impacto que aconteceu ao longo das nossas próprias experiências de perda, tristeza e esquecimento. E isso, em última análise, é o que levamos conosco quando vemos o filme de Alais Resnais – uma sensação do peso do tempo e de como continuamos vivendo, às vezes, contra obstáculos intransponíveis. “Hiroshima, meu amor” é um dos filmes mais importantes do século XX e certamente um de seus marcos cinematográficos, mas também um dos mais devastadores do ponto de vista emocional.

Luiz Filipe Noé escreve quinzenalmente para a Casa27.

Veja também outras matérias da Arca do Noé:

Comente Aqui!