Arca do Noé | “De Salto Alto” é o filme para entender Pedro Almodóvar

No longa, Pedro Almodóvar cria uma trama envolta em um melodrama que se torna um guia para entender o diretor

“De Salto Alto” (Tacones Lejanos, 1991) foi o nono filme escrito e dirigido por Pedro Almodóvar. Nessa produção, o autor já era conhecido do público a nível internacional devido ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988), alguns anos antes. Na opinião da maioria dos críticos, porém, foi “De Salto Alto” que marcou uma reviravolta em sua carreira. Oferecendo para o público um dos filmes mais densos que tinha rodado até então, Almodóvar criou uma trama envolta em um melodrama absoluto, desenvolvida em cima do recorte peculiar e particular de seu universo. Mais que um filme, a obra é um guia para entender o diretor.

O enredo dessa produção é como de costume: rocambolesco. A famosa atriz e cantora Becky del Paramo (Marisa Paredes) reencontra sua filha, a jornalista Rebecca (Victoria Abril), 15 anos após tê-la abandonado e ido para um autoexílio no México. Rebecca já foi casada, sem saber, com um ex-amante (Feodor Atkine) da mãe, com quem mantinha uma péssima relação conjugal. Porém, após sua traumática separação, Rebecca sublimou o abandono da mãe fazendo amizade com um transformista (Miguel Bosé), que imita um musical da diva Becky Star em um inferninho na periferia de Madrid. Uma relação sexual inesperada com o transformista a deixa grávida, e logo após descobrimos que seu ex-marido foi assassinado. Rebecca e Becky se tornaram as principais suspeitas do crime – e para completar, o transformista é o juiz encarregado do caso, um homem que tem uma vida dupla, no mínimo, excêntrica. 

Cena de “De Salto Alto”, com Miguel Bosé (à direita) como a transformista Becky Star.

Já se sabe que os filmes de Almodóvar tendem a melhorar com o tempo, principalmente se forem assistidos sem os apriorismos da época. A cada estreia no cinema, os longas geram uma grande expectativa por parte do público que lotam suas sessões por todo o mundo. Cada um espera reconhecer no novo filme a imagem personalista que foi criada em seu imaginário sobre o autor. Mas um dos grandes talentos do espanhol é conseguir surpreender a plateia com aventuras cinematográficas díspares, descolocando seus seguidores para uma nova narrativa.

Neste sentido, talvez, “De Salto Alto” tenha sido o filme que mais surpreendeu até aquele momento, por intensificar uma narrativa melodramática densa, com características de suspense, afastando-se das comédias de humor que lhe renderam tanto sucesso anteriormente. 

Tratando-se de uma narrativa almodóvariana, é preciso destacar a forma engenhosa como a que ele mescla uma história com contornos fortes, como um certo alívio cômico. No enredo temos a impressão que ele faz uma paródia do melodrama clássico, porém com a sutileza de não cair na caricatura. Em um caldeirão de referências, é possível reconhecer que o cineasta espanhol bebeu na fonte de grandes nomes do gênero, como o cineasta alemão Douglas Sirk, expoente dos filmes melodramáticos dos anos de 1950 (Imitação da Vida, Palavras ao Vento), e no cinema clássico argentino e mexicano das atrizes Libertad Lamarque e Maria Félix, que no passado foram as maiores estrelas do gênero na língua espanhola. O filme também passa pela literatura clássica de Victor Hugo e Balzac, e até mesmo nas referências das telenovelas mexicanas e venezuelanas que nos anos 1980 e 1990 dominavam os canais de televisão da Espanha com grande audiência. 

Pedro Almodóvar.

Se Almodóvar se abraçou no folhetim, neste filme temos aqueles ingredientes clássicos: relação de mãe e filha, assassinatos, gravidez, mistério, personalidades duplas e outras situações típicas do melodrama. Mas por trás dessa casca é preciso observar que também temos personagens densos, profundos, que comovem o público com suas emoções reais, tratando de assuntos tabus de um forma desnuda e sem rodeios.   

Acredito que o ponto mais sofisticado de “De Salto Alto” é a rica complexidade do ponto de vista psicológico com que cada personagem se apresenta. A comédia dramática não deixa também de ser um filme psiquiátrico, no qual todas as confusões sentimentais e todos os transtornos de identidade se tornam o ponto chave do espetáculo. Temos aqui outra marca da filmografia do cineasta espanhol: a obsessão de alguém por outra pessoa. O tema já havia aparecido anteriormente no polêmico “A Lei do Desejo” (1987), filme com embalagem noir, referência para entender a abordagem temática que viria a se tornar uma constante nas exitosas produções que Almodóvar realizaria nos anos seguintes, como Kika” (1993), “Carne Trémula” (1997), “Abraços Partidos” (2009) e tantos outros.

Na trama de “Salto Alto” é impressionante como a relação de Rebecca e Becky se aproxima do limite entre o amor e o ódio. Talvez a cena mais emblemática do filme seja o momento em que ambas têm uma acalorada discussão, e a filha revela para mãe sua frustração em tentar competir a vida inteira com ela e não conseguir. A personagem de Victoria Abril evoca um cena do filme “Sonata de Outono” (1978) de Ingmar Bergman, lembrado a história de uma filha que se sente inferior a mãe, uma famosa pianista, cuja influência é motivo de fascínio e submissão para uma mulher que se sente fracassada por não saber tocar piano como sua talentosa progenitora. 

Outro dos elementos mais admiráveis ​​do filme estão nas brilhantes atuações de Marisa Paredes e Victoria Abril. Seus olhares e silêncios são tão intensos e significativos como nos momentos em que discutem face a face. Ambas atrizes combinam a tragédia com o humor de maneira inteligente e sensível. Basta recordar o momento em que Abril faz uma revelação bombástica diante das câmeras do programa de televisão que ela apresenta, ou o álibi impagável de Paredes quando ela é acusada de assassinar o antigo amante: “Você não mata o marido da sua filha dois dias antes de fazer sua estreia no teatro…”. Ou ainda o diálogo que ambas estabelecem em uma ambulância, momento em que a narrativa atinge a altura máxima do surrealismo.

Marisa Paredes (à esquerda), Victoria Abril (ao fundo) e Miguél Bosé. Qualidade e timing cômico do elenco de “De Salto Alto” é um dos pontos fortes do filme.

Além disso, há muito para ver e apreciar no filme, que tem um trabalho de composição requintado, extravagante, cheio de cores (uma marca do diretor), em um jogo simétrico que se comunica em paralelo com o espectador através das roupas que vestem os personagens. As cores da casa da família, por exemplo, acabam marcadas nas vestes das protagonistas, lembrando seus próprios estados mentais. Os figurinos ficaram a cargo de ninguém menos que Karl Lagerfeld e Giorgio Armani.

A trilha sonora também tem um encaixe perfeito com a trama. Produzida pelo aclamado músico japonês Ryuichi Sakamoto, os instrumentais são intercalados por dois temas intensos da cantora espanhola Luz Casal, “Piensa en Mi” e “Um Año de Amor”, que dão o tom emotivo e sombrio para essa história de mulheres angustiadas e de destinos implacáveis.

O nome do filme, “De Salto Alto”, diz respeito a infância de Rebecca, quando em uma noite sua mãe deixou seu quarto, e a menina não conseguiu dormir prestando atenção nos sons dos sapatos da mãe, que estava andando pelo corredor da casa. As cenas em que aparecem os saltos de Becky del Paramo, com certeza, também estão entre as mais icônicas da produção. O próprio título original em espanhol, “Tacones Lejanos”, faz referencia ao filme americano “Distant Drums” (Tambores Distantes, 1951) que na Espanha passou com o nome de “Tambores Lejanos”. 

Um fato curioso é que o longa não foi, na época, uma unanimidade na crítica espanhola, o que não impediu uma grande repercussão internacional. A Academia de Cinema selecionou “De Salto Alto” como o representante espanhol no Oscar da época; e apesar de não ter vencido, levou o Globo de Ouro de 1992, além do Prêmio César francês, que o considerou o melhor filme estrangeiro do ano. Marisa Paredes foi premiada como Melhor Atriz no Brasil no Festival de Gramado, onde Pedro Almodóvar também foi reconhecido como o Melhor Diretor pelo filme. 

Creio que um dos grandes trunfos da obra é retratar o “lado B” da vida de uma artista com a forma despudorada como Almodóvar consegue fazer tão bem, mesclando o glamour e a decadência de uma vida cheia de altos e baixos. A história que ele conta é muito próxima de algumas biografias de estrelas hollywoodianas. Não se refere apenas a filmes clássicos do gênero, mas em várias entrevistas o próprio diretor afirmou que se baseou na vida das atrizes americanas Lana Turner e Joan Crawford. A primeira se envolveu em um triângulo amoroso com um gangster e sua filha, que tinha 13 anos. A história, digna de ficção, teve um final trágico, quando a herdeira de Turner supostamente matou o amante a facadas. Na época, havia uma tese de que a própria Lara teria matado aquele homem e a filha assumido a culpa para salvá-la da pena. Já Joan Crawford, após sua morte, teve sua vida exposta por uma de suas filhas adotivas, que alegou ter sido constantemente agredida e humilhada pela atriz.  

Assim, com muita engenhosidade para realizar o filme, o diretor espanhol pegou um gênero clássico do cinema e da literatura, o desconstruiu, e o esgarçou aos mais elevados níveis de tensão, reconstruindo um suspense melodramático de pujantes emoções e cores fortes. “De Salto Alto” é Almodóvar em estado puro.

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